30 janeiro 2007

tristeza dentro das coisas bonitas

[...]

No dia seguinte, logo de manhã. O rapaz foi ao seu jardim e colheu uma rosa encarnada muito perfumada. Foi para a praia e procurou o lugar da véspera.

- Bom dia, bom dia, bom dia - disseram a Menina, o polvo, o caranguejo e o peixe.
- Bom dia - disse o rapaz. E ajoelhou-se na água, frente da Menina do Mar.
- Trago-te aqui uma flor da terra - disse; chama-se uma rosa.
- É linda, é linda - disse a Menina do Mar, dando palmas de alegria e correndo e saltando em roda da rosa.
- Respira o seu cheiro para veres como é prefumada.

A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente. Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum prefume assim. Mas estou tonta e até um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
- Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.
- Mas o que é a saudade? - Perguntou a Menina do Mar.
- A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.
- Ai! - Suspirou a Menina do Mar olhando para a terra. Por que é que me mostraste a rosa? Agora estou com vontade de chorar.


[...]


Sophia de Mello Breyner Andresen, in A menina do mar

4 comentários:

ez disse...

é um dilema!

gaZpar disse...

Por vezes sinto-me como essa menina...

inixion disse...

ai ai.....(suspiro) ;)

kississs para a menina "uindaaa" ;)

Tongzhi disse...

Quem não se sente?